terça-feira, 3 de agosto de 2010

“Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria”

Naquele dia ela fez o que fazia todos os dias. Abriu o pequeno banco já gasto e sentou-se no seu quintal, à sombra pois não fosse o sol estar demasiado quente, e sabe-se lá que coisas terríveis poderiam daí advir. O banco tinha-o comprado na feira da ladra de uma terrinha que já nem lembrava o nome e o quintal tinha sido todo desenhado pelo marido, Deus o guarde. De resto, tudo era igual: vista privilegiada sobre a vida dos outros, estendal vestido de negro e rugas de uma vida árdua de trabalho. “Quando eu tinha cinco anos já descascava dois alguidares de batatas. Sabem lá eles o que são sacrifícios, o que é responsabilidade! A vida era tão mais difícil!... Agora, ai agora são favas contadas. Essa filha da Francelina mostra logo o que digo. Só anda de noite. Emperiquita-se toda e pois todos os dias um rapaz diferente a deixa aqui à porta. Uma galdéria como a mãe dela." E o mal-dizer continuava. Mal-dizer e lamentações eram novelo sem pontas.Todos os dias a mesma história, todos os dias um mal diferente se acercava dela. Ora não via, ora lhe doía a perna, ora a tensão estava demasiado alta, invejava a biblioteca do Mário Soares, invejava o cancro na língua da irmã - pois ao menos ela tinha a vista mais conservada. A sua vida tinha sido uma sucessão de desgraças, como se a todos os momentos lhe estivessem a cortar a jugular com uma folha de papel. Ora, uma vida assim não tem sentido. Mas não nos desviemos do essencial: a filha da Francelina. Tinha completado 22 anos na Terça-feira passada. Morava com a mãe e detestava a vizinha."Não tem vida própria essa parasita. Sempre à janela a fiscalizar tudo. Uma fingida é o que ela é." A filha da Francelina era fogo. Enquanto alguns se sentiam fascinados, outros - os que não a compreendiam, sentiam-se ameaçados. Caminhava com todas as certezas do mundo. Certezas do que queria, certezas de si mesma e até do que ainda não conhecia. Sorria ao mundo e, sempre que o fazia, um mundo inteiro se iluminava. Não ia em cantigas. Essa história do "deitar cedo e cedo erguer" só teve resultado até aos seus quatro anos, depois foi vê-la crescer, fazer o que achava certo, independentemente do que os outros pudessem dizer. Queria lá ela saber da vizinha! O dia começava com uma corrida na areia. Sentia cada grão. Sentia a vida por entre os dedos. Suava por todos os poros e era nessa altura que mergulhava para depois, num ápice, se enrolar na areia. Ria. Naquele momento era um rissol. Chegava a casa, directa para o quarto de banho, e debaixo do chuveiro estendia os cabelos por cima dos ouvidos. A água ao cair fazia um eco que se parecia ao de ondas gigantes a bater na areia. Era naquele momento uma baleia.Trincava a pleno dente uma maçã. Naquele momento poderia ser uma minhoca. Mas não se sentia como tal. Era antes uma rainha - com o maior privilégio do mundo: comer a melhor maçã. Beijava a mãe e saía. Ela adorava a rua. "Na rua é onde tudo se passa, onde há movimento, onde há contacto". Ela adorava o contacto.Encontrava o namorado. Era naquele momento uma mulher. Seria tudo o que quisesse. Ignorava por completo Ricardo Reis, Louis Garrel e até mesmo a sua mãe; ignorava-os quando lhe diziam para ter calma, para viver de forma mais mesurada. Que se lixem as mesuras, não podia ser feliz com elas. Veja-se a vizinha! Aquela pobre coitada que se queixava de todas as dores que a vida lhe causou. Quando ela se queixar de dores, recordar-se-à daquilo que as causou - e continuará a rir. Irá rir-se da dor. Irá rir-se da morte. Mas não ao contrario. Nunca ao contrário.