sexta-feira, 27 de julho de 2012

Just.

Tenho saudades tuas. Muitas. Nem as consigo guardar aqui, dentro de mim. Acordo e tomo o café contigo. Eu nem gosto de café mas ao teu lado tudo ganha outro sabor. (és uma injecção de vida.) Almoçamos e seguimos caminho para a praia. Mar, sal, areia e um tremoço. Tenho saudades tuas.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

4.



Estava a dormir. No verão é algo que não tenho dificuldade em fazer; o cansaço e a temperatura são ingredientes imbatíveis. Aquela música irritante. Só me lembro de pensar: “mas agora é que me estão a ligar para ir sair à noite?”. E  quando toquei no ecrã com o polegar direito, quando deslizei o botão, alterei o curso da vida. Era a minha avo. Gritava. Pedia ajuda. Dizia “ai” e mais nada, “ais” consecutivos, um eco que jamais tinha ouvido. Desligo, vejo que os meus pais não estão. Pego nas chaves do carro e sigo. Aquele caminho de escassos quilómetros pareceu-me durar meses a fazer. E escrevi um livro nesse tempo.
Quando cheguei vi luzes azuis que giravam a um ritmo alucinante. Entrei a medo. Parecia tudo uma cena de teatro, as beatas na rua a quererem saber mais, os gritos, os arrependimentos, o amor. Ele tinha morrido, com o que os médicos chamam vulgarmente de ataque cardíaco. Mas eu sei que não era bem isso. A verdade é que o coração dele era demasiado grande para o corpo; mesmo que o corpo tivesse dez vezes o tamanho, o coração seria sempre demasiado grande.
Levar a avo para casa, ligar ao Silvino dos caixões, marcar missa com o Padre, ligar ao resto da família, e mais o quê? O que é que se faz quando alguém nos morre? “Va Avo, ele morreu exactamente da maneira que ele gostaria. Va Avo, vai tudo correr bem. Va Avo não se preocupe que nos estamos aqui.”, “Mãe, um beijinho.”, “João... Acordei-te? Olha, tenho uma ma noticia para te dar” (como é que se diz a um filho que o pai morreu?). E o mundo cai, o mundo cai. “Han?!”.
Somos todos adultos, somos todos muito fortes. Estamos todos perdidos. Cada um com a sua lista mental de afazeres.
Ninguém chora. A mãe não chora porque tem de ser forte pelos filhos. Os filhos não choram porque têm de ser fortes pela mãe. Os netos não choram porque têm de ser fortes pela avo e pelos pais. Valha-nos as beatas, agarradas aos seus terços e à sua língua, que fazem um lago de lágrimas. E o caixão fica a sete palmos do chão. E tu ficas aqui, dentro de nos.

sábado, 2 de junho de 2012

Declaração de interesses


O mundo anda mesmo ao contrario. Venho de dizer a alguém que me adora há anos que todas as suas certezas me causam medo porque eu não sinto nada do que ele me fala. Minto. Claro que sinto! Só não o sinto por ele, mas por ti. E estou a ouvir coldplay; disseste que a música que te fazia lembrar de mim era a don’t panic. E é isso que estou a tentar fazer. Quem me vir não diz que me dói o corpo todo. Quem me vir não diz que quando te vejo o meu estômago da trinta voltas. Don’t panic. Don’t panic.
Tenho medo de nunca mais sentir com ninguém aquilo que senti contigo. Tenho medo que o teu rosto continue a vir-me ao pensamento antes de dormir até aos meus 80 anos. Tenho medo de te continuar a ver e (em vez de pensar “oh meu deus, como pude eu gostar deste tipo?!”), pensar: “percebo exactamente porque é que gosto tanto dele”. Tenho medo de tudo. De tudo. E estou capaz de render-me a tudo, menos à ideia de me contentar com menos que aquilo que senti. Nao faz sentido um amor-conforto, quando se conhece um amor-fogo-conforto.