Estava a dormir. No verão é algo que não tenho dificuldade em fazer; o
cansaço e a temperatura são ingredientes imbatíveis. Aquela música irritante.
Só me lembro de pensar: “mas agora é que me estão a ligar para ir sair à
noite?”. E quando toquei no ecrã com o
polegar direito, quando deslizei o botão, alterei o curso da vida. Era a minha
avo. Gritava. Pedia ajuda. Dizia “ai” e mais nada, “ais” consecutivos, um eco
que jamais tinha ouvido. Desligo, vejo que os meus pais não estão. Pego nas
chaves do carro e sigo. Aquele caminho de escassos quilómetros pareceu-me durar
meses a fazer. E escrevi um livro nesse tempo.
Quando cheguei vi luzes azuis que giravam a um ritmo alucinante. Entrei a
medo. Parecia tudo uma cena de teatro, as beatas na rua a quererem saber mais,
os gritos, os arrependimentos, o amor. Ele tinha morrido, com o que os médicos
chamam vulgarmente de ataque cardíaco. Mas eu sei que não era bem isso. A
verdade é que o coração dele era demasiado grande para o corpo; mesmo que o
corpo tivesse dez vezes o tamanho, o coração seria sempre demasiado grande.
Levar a avo para casa, ligar ao Silvino dos caixões, marcar missa com o
Padre, ligar ao resto da família, e mais o quê? O que é que se faz quando
alguém nos morre? “Va Avo, ele morreu exactamente da maneira que ele gostaria.
Va Avo, vai tudo correr bem. Va Avo não se preocupe que nos estamos aqui.”, “Mãe,
um beijinho.”, “João... Acordei-te? Olha, tenho uma ma noticia para te dar”
(como é que se diz a um filho que o pai morreu?). E o mundo cai, o mundo cai.
“Han?!”.
Somos todos adultos, somos todos muito fortes. Estamos todos perdidos. Cada
um com a sua lista mental de afazeres.
Ninguém chora. A mãe não chora porque tem de ser forte pelos filhos. Os
filhos não choram porque têm de ser fortes pela mãe. Os netos não choram porque
têm de ser fortes pela avo e pelos pais. Valha-nos as beatas, agarradas aos
seus terços e à sua língua, que fazem um lago de lágrimas. E o caixão fica a
sete palmos do chão. E tu ficas aqui, dentro de nos.