sábado, 19 de janeiro de 2013

O Portugal de José Luís Peixoto é igual ao meu

Querido Pedro, o meu Portugal é igual ao do José Luís Peixoto. É branco. É múltiplo. O nosso escritor contemporâneo mais talentoso tem, felizmente, mais vocabulário, mais clareza de espírito, mais facilidade em passar algo tão complexo para palavras. De forma tal, que até parece simples! Eu bem te disse que ele era bom. Não pude evitar a lágrima no canto do olho ao ver a senhora com o gatinho, ao sentir o reconhecimento do escritor pela parte daquelas crianças, daquela terra, daquela gente. Sorri quando chegou à parte dos emigrantes – essa espécie em crescimento. Pergunto-me qual será o Portugal de Sócrates, de Sampaio, de Passos, de Cavaco, desses administradores corruptos, desses deputados sujos. Pergunto-me se terão vergonha dos seus avós..., é que os avós deles de certeza que têm vergonha dos seus netos. Pergunto-me que cor terá Portugal para eles..., é que o estão a pintar de preto. Pergunto-me que vida teria caso decidisse ficar, - que vida teriam os que dependem de mim? Pergunto-me se esses filhos da puta se perguntam o mesmo. E, no meio de tantas dúvidas que tenho, a única certeza é que não. Um abraço. E obrigada. Obrigada por encurtares a distancia, por partilhares, e sobretudo por me lembrares que te lembras.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Just.

Tenho saudades tuas. Muitas. Nem as consigo guardar aqui, dentro de mim. Acordo e tomo o café contigo. Eu nem gosto de café mas ao teu lado tudo ganha outro sabor. (és uma injecção de vida.) Almoçamos e seguimos caminho para a praia. Mar, sal, areia e um tremoço. Tenho saudades tuas.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

4.



Estava a dormir. No verão é algo que não tenho dificuldade em fazer; o cansaço e a temperatura são ingredientes imbatíveis. Aquela música irritante. Só me lembro de pensar: “mas agora é que me estão a ligar para ir sair à noite?”. E  quando toquei no ecrã com o polegar direito, quando deslizei o botão, alterei o curso da vida. Era a minha avo. Gritava. Pedia ajuda. Dizia “ai” e mais nada, “ais” consecutivos, um eco que jamais tinha ouvido. Desligo, vejo que os meus pais não estão. Pego nas chaves do carro e sigo. Aquele caminho de escassos quilómetros pareceu-me durar meses a fazer. E escrevi um livro nesse tempo.
Quando cheguei vi luzes azuis que giravam a um ritmo alucinante. Entrei a medo. Parecia tudo uma cena de teatro, as beatas na rua a quererem saber mais, os gritos, os arrependimentos, o amor. Ele tinha morrido, com o que os médicos chamam vulgarmente de ataque cardíaco. Mas eu sei que não era bem isso. A verdade é que o coração dele era demasiado grande para o corpo; mesmo que o corpo tivesse dez vezes o tamanho, o coração seria sempre demasiado grande.
Levar a avo para casa, ligar ao Silvino dos caixões, marcar missa com o Padre, ligar ao resto da família, e mais o quê? O que é que se faz quando alguém nos morre? “Va Avo, ele morreu exactamente da maneira que ele gostaria. Va Avo, vai tudo correr bem. Va Avo não se preocupe que nos estamos aqui.”, “Mãe, um beijinho.”, “João... Acordei-te? Olha, tenho uma ma noticia para te dar” (como é que se diz a um filho que o pai morreu?). E o mundo cai, o mundo cai. “Han?!”.
Somos todos adultos, somos todos muito fortes. Estamos todos perdidos. Cada um com a sua lista mental de afazeres.
Ninguém chora. A mãe não chora porque tem de ser forte pelos filhos. Os filhos não choram porque têm de ser fortes pela mãe. Os netos não choram porque têm de ser fortes pela avo e pelos pais. Valha-nos as beatas, agarradas aos seus terços e à sua língua, que fazem um lago de lágrimas. E o caixão fica a sete palmos do chão. E tu ficas aqui, dentro de nos.

sábado, 2 de junho de 2012

Declaração de interesses


O mundo anda mesmo ao contrario. Venho de dizer a alguém que me adora há anos que todas as suas certezas me causam medo porque eu não sinto nada do que ele me fala. Minto. Claro que sinto! Só não o sinto por ele, mas por ti. E estou a ouvir coldplay; disseste que a música que te fazia lembrar de mim era a don’t panic. E é isso que estou a tentar fazer. Quem me vir não diz que me dói o corpo todo. Quem me vir não diz que quando te vejo o meu estômago da trinta voltas. Don’t panic. Don’t panic.
Tenho medo de nunca mais sentir com ninguém aquilo que senti contigo. Tenho medo que o teu rosto continue a vir-me ao pensamento antes de dormir até aos meus 80 anos. Tenho medo de te continuar a ver e (em vez de pensar “oh meu deus, como pude eu gostar deste tipo?!”), pensar: “percebo exactamente porque é que gosto tanto dele”. Tenho medo de tudo. De tudo. E estou capaz de render-me a tudo, menos à ideia de me contentar com menos que aquilo que senti. Nao faz sentido um amor-conforto, quando se conhece um amor-fogo-conforto.

sábado, 16 de outubro de 2010

Um tapete

Assim que escrevi o numero um, sabia que o três seria para ti. Poderia fazer uma dissertação sobre as razões desta escolha mas, na realidade, ela não serviria para nada. De resto, como a maior parte das dissertações.
E passei dias a olhar para uma folha em branco, a escrever, a riscar, a riscar, a riscar. Sabes aquelas alturas em que te apetece saltar um passo, mas que a tua consciência te impede de fazê-lo? E se a seguir ao dois viesse o quatro? Estaria pronta a reformular todas as leis da matemática para não pensar em ti de novo.

A seguir à formação, a seguir às imperiais no bar das pombas, a seguir às mensagens e às minis, a seguir à distância, a seguir à minha declaração de amor inesperada, a seguir à distancia, a seguir às palavras fúteis, a seguir a falarmos do tempo, a seguir ao um e ao dois.

Tu não tens noção (nem teras depois disto) mas, as minhas entranhas iam naquele texto. Embrulhei-as em papel e tive a coragem (ou atrevimento) de tas enviar. Eram as minhas entranhas Pedro. Ainda bem que as despejaste num qualquer caixote. Não as queria de volta. E é isso: tu mereces o numero três pela tua virtuosidade. Porque agarraste nas entranhas e fizeste o que achaste melhor, porque agarras em tudo, emocionalmente pesado ou oco, e aligeiras de forma tão natural que parece nem doer.
O ser humano é velhaco por natureza. Cobrimo-nos de mesuras, de delicadezas, de gestos e códigos impostos ao longo de séculos mas, na realidade, somos carne e osso, somos pecado, somos veneno. Autênticos. Egoístas. Desumanamente egoístas. Dizer "gosto de ti" deve ser traduzido como "gosto do que me fazes sentir". Tudo se reflecte no "próprio". Então que raio me fizeste tu sentir? Há muito coisa que adoro em ti. A pinta, a voz, o humor, a cultura, a forma como colocas as palavras. Mas há muito boa gente por aí com boa pinta, com boa voz, com sentido de humor.

(Pensamos em arte, em musica, em desporto. Pensamos em tanta coisa que, maior parte das vezes, não vamos ao fundo de nós. Mas com a chegada do numero três veio também a obrigação de tentar entender.)

O que me fizeste sentir foi algo que nunca tinha antes experienciado: a certeza. Sao raros os momentos em que um indivíduo se encontra certo de alguma coisa. Há sempre condições, ha sempre outras hipóteses, outros pontos de vista. Neste mundo cruelmente inconstante, a certeza é do mais relevante que existe, somente equiparável aos quatro elementos. Tu deste-me um tapete bem macio. E coloriste-o.
E foi pura e simplesmente isto: um tapete. Um tapete mágico que ja não tenho, que recordo com saudade. Mas apenas isso. Obrigada a ti por tudo isto.


terça-feira, 3 de agosto de 2010

“Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria”

Naquele dia ela fez o que fazia todos os dias. Abriu o pequeno banco já gasto e sentou-se no seu quintal, à sombra pois não fosse o sol estar demasiado quente, e sabe-se lá que coisas terríveis poderiam daí advir. O banco tinha-o comprado na feira da ladra de uma terrinha que já nem lembrava o nome e o quintal tinha sido todo desenhado pelo marido, Deus o guarde. De resto, tudo era igual: vista privilegiada sobre a vida dos outros, estendal vestido de negro e rugas de uma vida árdua de trabalho. “Quando eu tinha cinco anos já descascava dois alguidares de batatas. Sabem lá eles o que são sacrifícios, o que é responsabilidade! A vida era tão mais difícil!... Agora, ai agora são favas contadas. Essa filha da Francelina mostra logo o que digo. Só anda de noite. Emperiquita-se toda e pois todos os dias um rapaz diferente a deixa aqui à porta. Uma galdéria como a mãe dela." E o mal-dizer continuava. Mal-dizer e lamentações eram novelo sem pontas.Todos os dias a mesma história, todos os dias um mal diferente se acercava dela. Ora não via, ora lhe doía a perna, ora a tensão estava demasiado alta, invejava a biblioteca do Mário Soares, invejava o cancro na língua da irmã - pois ao menos ela tinha a vista mais conservada. A sua vida tinha sido uma sucessão de desgraças, como se a todos os momentos lhe estivessem a cortar a jugular com uma folha de papel. Ora, uma vida assim não tem sentido. Mas não nos desviemos do essencial: a filha da Francelina. Tinha completado 22 anos na Terça-feira passada. Morava com a mãe e detestava a vizinha."Não tem vida própria essa parasita. Sempre à janela a fiscalizar tudo. Uma fingida é o que ela é." A filha da Francelina era fogo. Enquanto alguns se sentiam fascinados, outros - os que não a compreendiam, sentiam-se ameaçados. Caminhava com todas as certezas do mundo. Certezas do que queria, certezas de si mesma e até do que ainda não conhecia. Sorria ao mundo e, sempre que o fazia, um mundo inteiro se iluminava. Não ia em cantigas. Essa história do "deitar cedo e cedo erguer" só teve resultado até aos seus quatro anos, depois foi vê-la crescer, fazer o que achava certo, independentemente do que os outros pudessem dizer. Queria lá ela saber da vizinha! O dia começava com uma corrida na areia. Sentia cada grão. Sentia a vida por entre os dedos. Suava por todos os poros e era nessa altura que mergulhava para depois, num ápice, se enrolar na areia. Ria. Naquele momento era um rissol. Chegava a casa, directa para o quarto de banho, e debaixo do chuveiro estendia os cabelos por cima dos ouvidos. A água ao cair fazia um eco que se parecia ao de ondas gigantes a bater na areia. Era naquele momento uma baleia.Trincava a pleno dente uma maçã. Naquele momento poderia ser uma minhoca. Mas não se sentia como tal. Era antes uma rainha - com o maior privilégio do mundo: comer a melhor maçã. Beijava a mãe e saía. Ela adorava a rua. "Na rua é onde tudo se passa, onde há movimento, onde há contacto". Ela adorava o contacto.Encontrava o namorado. Era naquele momento uma mulher. Seria tudo o que quisesse. Ignorava por completo Ricardo Reis, Louis Garrel e até mesmo a sua mãe; ignorava-os quando lhe diziam para ter calma, para viver de forma mais mesurada. Que se lixem as mesuras, não podia ser feliz com elas. Veja-se a vizinha! Aquela pobre coitada que se queixava de todas as dores que a vida lhe causou. Quando ela se queixar de dores, recordar-se-à daquilo que as causou - e continuará a rir. Irá rir-se da dor. Irá rir-se da morte. Mas não ao contrario. Nunca ao contrário.

domingo, 17 de janeiro de 2010

2.

Troquei o meu espaço por uma zona comum. Esta sala vai contra tudo o que quero para mim: os sofás azuis e amarelos são terrivelmente desconfortáveis, os candeeiros parecem ter vindo de um antiquário barato, o móvel cheio de anjos, anjinhos, pratos e cristais - uma montra do horror. No entanto, vim aqui parar, acho que para sentir uma mudança (é claro que com este sofá a mudança sentir-se-á ao nível da coluna). E, apesar de nada disto ter a ver comigo, aprecio este momento... Estar em paz neste lugar comum era algo que, há uns tempos atrás, me pareceria muito improvável. Dizem que a esperança é a última a morrer, pois nessa altura até a esperança estava enterrada, num estado de decomposição extremamente avançado. A verdade é que, aquela travessa de aperitivos, com sete divisórias e estrutura em metal, ainda aqui está. Tal como eu. E embarco numa viagem ao passado: era dia de semana, um dia igual a todos os outros, quando ele chegou a gritar por razões que não entendo, razões que nem ele conhece, manifestava-se de forma violenta e, foi de forma violenta que atirou ao chão tudo o que estava naquele pequeno móvel. Cacos bem pequenos, tudo irremediavelmente partido, à excepção da travessa. E começa tudo a aparecer, qual avalanche... A almofada de forma a cobrir os olhos e os ouvidos, cantar muito alto para não ouvir o que se passava ali, na divisão ao lado. Os botões arrancados, os empurrões, as palavras cheias de raiva. Lembro-me de esconder as facas da cozinha para não se cometerem (mais) loucuras. É difícil ficar calado, quando quem amas, ou amaste, se destrói, te destrói. E tudo o que se guarda a cada minuto, pode ser expelido a qualquer altura. Acabas por ter medo de ti mesmo, do que tens dentro de ti, do que podes oferecer, aliás do que não tens para oferecer. E olhas para o teu reflexo: quando os gestos são meros impulsos eléctricos do teu cérebro, quando as tuas preocupações não passam pelas notas mas por esconder objectos cortantes, quando os teus planos não passam por uma noite de borga mas sim por uma noite calma de sono, quando não tens ninguém e, de facto, não queres ninguém. Quando olhas para o teu reflexo não vês ninguém do outro lado, porque te anulaste aos poucos. E emirjo, volto à sala d’hoje, ele vê televisão, ela bebe um chá, e a travessa continua ali. Não é de todo uma história triste, é uma história de sobrevivência, onde não há vítimas nem abandonados. É, talvez e infelizmente, uma história como tantas outras...