domingo, 17 de janeiro de 2010

2.

Troquei o meu espaço por uma zona comum. Esta sala vai contra tudo o que quero para mim: os sofás azuis e amarelos são terrivelmente desconfortáveis, os candeeiros parecem ter vindo de um antiquário barato, o móvel cheio de anjos, anjinhos, pratos e cristais - uma montra do horror. No entanto, vim aqui parar, acho que para sentir uma mudança (é claro que com este sofá a mudança sentir-se-á ao nível da coluna). E, apesar de nada disto ter a ver comigo, aprecio este momento... Estar em paz neste lugar comum era algo que, há uns tempos atrás, me pareceria muito improvável. Dizem que a esperança é a última a morrer, pois nessa altura até a esperança estava enterrada, num estado de decomposição extremamente avançado. A verdade é que, aquela travessa de aperitivos, com sete divisórias e estrutura em metal, ainda aqui está. Tal como eu. E embarco numa viagem ao passado: era dia de semana, um dia igual a todos os outros, quando ele chegou a gritar por razões que não entendo, razões que nem ele conhece, manifestava-se de forma violenta e, foi de forma violenta que atirou ao chão tudo o que estava naquele pequeno móvel. Cacos bem pequenos, tudo irremediavelmente partido, à excepção da travessa. E começa tudo a aparecer, qual avalanche... A almofada de forma a cobrir os olhos e os ouvidos, cantar muito alto para não ouvir o que se passava ali, na divisão ao lado. Os botões arrancados, os empurrões, as palavras cheias de raiva. Lembro-me de esconder as facas da cozinha para não se cometerem (mais) loucuras. É difícil ficar calado, quando quem amas, ou amaste, se destrói, te destrói. E tudo o que se guarda a cada minuto, pode ser expelido a qualquer altura. Acabas por ter medo de ti mesmo, do que tens dentro de ti, do que podes oferecer, aliás do que não tens para oferecer. E olhas para o teu reflexo: quando os gestos são meros impulsos eléctricos do teu cérebro, quando as tuas preocupações não passam pelas notas mas por esconder objectos cortantes, quando os teus planos não passam por uma noite de borga mas sim por uma noite calma de sono, quando não tens ninguém e, de facto, não queres ninguém. Quando olhas para o teu reflexo não vês ninguém do outro lado, porque te anulaste aos poucos. E emirjo, volto à sala d’hoje, ele vê televisão, ela bebe um chá, e a travessa continua ali. Não é de todo uma história triste, é uma história de sobrevivência, onde não há vítimas nem abandonados. É, talvez e infelizmente, uma história como tantas outras...

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