sábado, 16 de janeiro de 2010

1.

Tenho saudades tuas. Ou talvez tenha saudades de como me fazias sentir. Todos os dias me agarravas a mão com firmeza e, às escondidas, ias levar-me à escola mais cedo para eu poder andar nos baloiços antes da aula. Todos os dias me compravas um pacote de madalenas, regavas as minhas árvores de fruto predilectas, te sentavas na cadeira de praia branca e me vias a brincar. E tenho a certeza que eu era o brilho nos teus olhos. E é disso que sinto mais saudades – do brilho nos teus olhos, de ser o brilho nos teus olhos. Já passaram anos desde o nosso último encontro. Estavas naquela cama, rodeado de quatro paredes brancas com uma pequena barra pintada a verde-feio, à tua esquerda uma janela que parecia mingar à medida que os dias passavam, na mesa de cabeceira o teu pente castanho não fosses tu acordar (e claro, o acto de te penteares seria imediato). Não percebia bem que fazia um saco ali pendurado na cama, sabia que não era para decoração, que tinha alguma coisa a ver contigo, mas não quis perguntar - há coisas que simplesmente não se devem saber. Lembro-me de ter aberto a porta do teu quarto, de ter simulado uma entrada silenciosa mas ter feito um banzé, como se bater com os pés, ou fazer barulhos com o casaco fossem actos banais meus. Bolas, eu queria acordar-te! Queria que, naquela altura, abrisses os olhos, que falasses, ou que pelo menos me ouvisses dizer que nunca tinha precisado dos heróis de banda-desenhada porque sempre te tive a ti. Ouves-me dizê-lo agora? Tenho medo que não. Não posso deixar que a última imagem que tenho de ti seja um fato inteiro dentro de uma caixa de madeira. Todos os dias tento falar contigo. Todos os dias o silêncio é a resposta. Todos os dias dói. Eu sei que nem sempre fui do mais sossegado, que pregava partidas diabólicas para alguém tão novo, que não ajudei, nem sequer agradeci . Sei que não consegui ser nem um terço do que idealizaste. Sei que todos os dias tento. E penso no nosso próximo encontro: levarei comigo um baralho com umas cinco mil cartas. E nem que eu já tenha 50 anos, vou continuar a pedir-te colo, vou dizer-te infinitas vezes aquilo que ficou não dito, talvez até te peça para empurrares o carro-de-mão comigo lá dentro. E sei que farás tudo isso. O que dói mais é saber que o farias, sempre. Talvez só tenhas ido buscar um saco de madalenas para comermos ao lanche. Continuo à tua espera Avô, com um leite bem quente.

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